Interesses no Oriente Médio contra o desarmamento nuclear

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Nuclear Abolition News | IPS
Thalif Deen


Nova York (IPS) - A proposta de criar uma zona livre de armas atômicas no Oriente Médio pode levar ao fracasso a Conferência das Partes encarregada do exame do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNPN)

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, chamou de “reconhecido fracasso” a revisão do tratado de 2005 e reiterou a necessidade de criar uma zona livre de armas nucleares (ZLAN), segundo declarações ao International Herald Tribune na semana passada.

“O Egito armará um grande alvoroço, como o Irã”, disse Joseph Gerson, diretor de desarmamento do Comitê de Serviços de Amigos Norte-Americnaos. “Mas as crises sempre abrem uma oportunidade. Vejamos o que se pode fazer a respeito”, afirmou o autor de “Empire and the Bomb: How U. S. Uses Nuclear Weapons to Dominate the World” (Império e a Bomba: Como os Estados Unidos recorrem às Armas Nucleares para Dominar o Mundo).

“Há quem tenha medo de que o assunto jogue por terra a conferência”, afirmou Anne Penketh, diretora de programa do Conselho Britânico Norte-Americano de Informação para a Segurança (Basic). “No entanto, creio que o Egito pode chegar a ser mais flexível do que parece, e os Estados Unidos podem realizar grandes esforços de negociação com esse país”, acrescentou. Um esforço de boa fé sobre medidas práticas pode representar um grande avanço, mas é muito cedo para saber que rumo tomarão as negociações, acrescentou.

A Casa Branca afirma que é bom para as negociações de paz a criação de uma ZLAN no Oriente Médio. Washington apoia de forma incondicional a segurança de Israel, único país dessa região com armas nucleares. Mas, “se for permitido manter o beco sem saída, será como ceder a Israel, país signatário do TNPN, a possibilidade de vetar o futuro do tratado”, disse Penketh no estudo “Peeling the Onion: Towards a Middle East NWFZ” (Descascando a Cebola: para uma ZLAN no Oriente Médio).

Causam preocupação as armas atômicas que, oficialmente, não se reconhece que Israel possui e o profundo sentimento de injustiça que têm os Estados árabes, que acusam os países nucleares de “duplo discurso”, acrescentou. Também dizem que “protegem Israel enquanto aplicam sanções a países como o Irã, que insiste em seu direito de ter energia nuclear para fins civis”, acrescentou Penketh. “Sempre foi usado o duplo discurso na realpolitik, política pragmática, para o Irã”, respondeu Gerson ao ser consultado sobre o assunto.

Desde a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), as grandes potências ocidentais fizeram o que consideraram necessário para controlar o “centro geopolítico da luta pelo poder mundial”, como disse o escritor e ativista Eqbal Ahmad. A Primeira Guerra Mundial foi uma luta pelo controle do moribundo Império Otomano e pelo que Winston Churchill (1874-1965) considerou como “prêmio”, em alusão ao petróleo do Oriente Médio.

O Irã é considerado uma ameaça para o controle dos Estados Unidos sobre essa rica região em petróleo. Quando a República Islâmica desafia a ordem estabelecida, movimentam-se esforços para colocá-la no lugar, disse Gerson. “Para ser claro, creio que nenhuma nação deveria ter armas nucleares, nem mesmo centrais” de geração de energia, ressaltou. “O uso de armas atômicas é genocida e as centrais nucleares apresentam um perigo inerente, não só pela possibilidade de fusão do núcleo, mas porque ainda há a necessidade de se desfazer do lixo radioativo que contamina a Terra e é um perigo para a vida por dezenas de milhares de anos”, explicou.

Os Estados Unidos têm uma aliança tácita com a Índia, ao mesmo tempo em que procura se acercar da China, enquanto o Paquistão é um aliado importante de Washington na Ásia central, disse Gerson ao ser consultado sobre o duplo discurso da Casa Branca para esses países. “Não irá pressioná-los”, afirmou Gerson, como já se viu na cúpula de segurança organizada em abril pelo presidente Barack Obama.

Há tempos que Israel é considerado o martelo dos Estados Unidos no Oriente Médio, porque lhe permite reforçar sua hegemonia na região. O Estado Judeu conta, ainda, com o poder do lobby sionista, acrescentou. “Os próximos dias podem deixar interessantes as tensões entre Estados Unidos e Israel e pela tentativa de Cairo de dar relevância ao assunto das armas nucleares israelenses na conferência sobre o TNPN”, disse Gerson.

Washington negou visto a cientistas e engenheiros israelenses que pretendiam entrar nos Estados Unidos para aprofundar seus estudos, fato que teve pouca divulgação, disse Gerson. “Apoiamos os esforços para declarar uma ZLAN na região, segundo a resolução sobre Oriente Médio de 1995”, afirmou, no dia 3, a secretária de Estado, Hillary Clinton, na abertura da cúpula. “Estamos preparados para apoiar medidas práticas que nos aproximem desse objetivo”, acrescentou, após declarar que o Oriente Médio pode ser a maior ameaça mundial contra o desarmamento nuclear.

Há várias ZLAN na África, Ásia central, América Latina e Caribe, bem como na Mongólia. Faltam no Oriente Médio e na Ásia meridional, onde estão Índia e Paquistão. O governo Obama enviará ao Senado protocolos para ratificar a participação nas ZLAN criadas na África e no sudeste asiático, anunciou Hillary. “Estamos dispostos a realizar consultas na Ásia central e no sudeste asiático para conseguir um acordo que nos permita assinar esses protocolos”, acrescentou. IPS/Envolverde

(FIN/2010)

 

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